Empreendedorismo

Brasileiros produzem vinho em Portugal

Fonte - Valor Econômico
12/05/17 09:15
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Investimentos variam entre produção e abertura de lojas

Portugal, definitivamente, está na moda. Não apenas como lugar para morar, onde brasileiros estão comprando imóveis ou transferindo sua aposentadoria em busca de um visto de permanência. Nos últimos anos, empresários brasileiros também começaram a investir no mundo do vinho. Seja na compra de quintas para produção vinícola ou na abertura de lojas.

O país pequeno e acolhedor, com 750 empresas de vinho ativas, atraiu o empresário João Carlos Paes Mendonça, CEO do Grupo JCPM, que no Brasil atua no ramo imobiliário, de shopping centers e comunicação. Em terras lusas, ele investiu na Quinta Maria Izabel, com 130 hectares no Douro, onde produz tintos, brancos e vinho do Porto. Os primeiros vinhos começaram a ser vendidos em 2015.

Outro brasileiro que escolheu o Douro para produzir seu vinho é Marcelo Lima, que se associou ao inglês Tony Smith e, depois de percorrer vários países europeus, fincou seus pés em Portugal, em 2011. Hoje, a Lima Smith é proprietária das Quintas de Covela e da Boavista e da marca de vinhos Quinta das Tecedeiras.

A Quinta de Covela é um endereço mítico em Portugal por ter sido propriedade do cineasta Manoel de Oliveira (1908-2015). A quinta, que fica na região de origem controlada (DOC) do vinho verde, teve as vinhas recuperadas com substituição de 50%. Para iniciar a produção, foi recontratada a antiga equipe de vinicultura e enologia, conta Lima, que vive em São Paulo, onde é acionista da Restoque Comércio e Confecções de Roupas e do grupo Artesia, cuja atuação vai da fabricação e venda de refrigeradores ao mercado financeiro.

Lima acredita que falar a mesma língua era a única forma de estabelecer uma relação verdadeira com a gente da terra, ligada ao campo. A escolha se provou acertada. Atualmente, somando todos os rótulos de vinho, a Lima Smith vende 35% de sua produção para o mercado português, exporta 35% para o Brasil e 30 % para outros países. Na semana passada, a empresa fechou acordo para que a Covela recupere os vinhos da Fundação Eça de Queiroz, que administra a casa-museu do escritor.

A Quinta da Boavista, com seus 39 hectares, antigo endereço da nobreza e considerada um "rolls-royce" do Douro, teve o rótulo Quinta da Boavista, vinha do Ujo, safra 2013, lançado no ano passado. De cara, recebeu 95 pontos do crítico Robert Parker. A garrafa custa € 100 em Portugal e R$1,2 mil no Brasil. É a mais cara da Lima Smith. A mais barata é a Covela Edição Nacional Arinto, que sai por € 8 em Portugal ou, surpreendentemente, por R$ 120 no mercado brasileiro.

Nem só na produção de vinho, porém, os brasileiros estão interessados. O sommelier mineiro Guilherme Correa está de mudança para Lisboa onde, até novembro, pretende inaugurar uma loja de vinhos em sociedade com dois gaúchos, a Wines by Heart. A desfavorável situação econômica e política do Brasil ajudou o sommelier, com vinte anos de experiência, a colocar em prática o sonho de empreender na Europa. O plano é ter três lojas em Portugal nos próximos dois ou três anos.

Correa prefere não falar do montante do investimento. Diz que será progressivo. "Enquanto 95% do mercado português é de vinhos na faixa de € 5, comprados em supermercados, vamos disputar os outros 5%, um verdadeiro nicho". Sua seleção, majoritariamente de rótulos portugueses, será garimpada em pequenos produtores e fugirá das grandes marcas. "Vamos buscar algo alternativo em regiões novas, para marcar diferença num mercado convencional".

Na interpretação do produtor português Dirk Niepoort, esse movimento de brasileiros (e não só) acontece porque a economia tende a se recuperar em razão do boom turístico e pelo fato de seu país ser relativamente seguro e estar afastado das ameaças terroristas. É como se, neste momento, Portugal simbolize uma espécie de oásis numa Europa amedrontada, como ocorreu durante a Segunda Guerra Mundial.

"Portugal vai ter um renascimento", diz Niepoort, um dos participantes do evento Vinhos de Portugal, que ocorrerá em junho pela quarta vez no Rio e que, neste ano, chega a São Paulo. "Os vinhos portugueses têm diversidade e personalidade. Há anos que eu aposto em vinhas velhas e na mistura de castas autóctones em vez de embarcar no gosto globalizado do chardonnay ou cabernet sauvignon. É um produto que já foi difícil de vender, mas que será cada vez mais prestigiado", acredita ele.

Quando na região do Douro se fazia apenas vinho do Porto, Niepoort, que está há trinta anos no mercado, foi um dos primeiros a apostar na utilização das uvas para o vinho de mesa, tinto e branco, enxergando nisso um novo horizonte de negócios. De 15 anos para cá, outros produtores acreditaram na ideia e, hoje, o vinho tranquilo ocupa um terço da produção regional. A sua empresa, a Niepoort, que carrega o sobrenome da família, exporta 80% da produção, sendo 10% para o Brasil.

Em 12º lugar entre os produtores mundiais de vinho, Portugal é responsável por apenas 2% do total. A produção de 600 milhões de litros ao ano, um negócio de € 1,5 bilhão, corresponde a 20% do produto agrícola e a menos de 1% do PIB. No ano passado, houve uma queda de 5% no volume comparado a 2015.

No comércio internacional de vinhos, Portugal é o 10º colocado, o que se traduz numa fatia de 3% do total. O país exporta 42% da produção e os maiores compradores são Estados Unidos, França, Alemanha, Canadá e Reino Unido. O Brasil está em 11º lugar. Nem por isso deixa de ser um mercado prioritário. O vinho português é o terceiro mais vendido no país, depois do chileno e argentino, e ocupa 12% do mercado, numa disputa constante com a Itália. O curioso é que, talvez por conta da tradição portuguesa na cidade que já foi capital, tem 20% da cota de importação no Rio de Janeiro e 16% em São Paulo.

O presidente da ViniPortugal, Jorge Monteiro, diz que há interesse em crescer no Brasil, mas que a "política vitivinícola portuguesa não está no volume e, sim, na valorização do produto". Até porque as regras da União Europeia limitam novas plantações. Quanto ao Brexit, ele afirma haver uma expectativa tranquila. "Não sabemos como serão os novos contratos, mas os ingleses não deixarão de beber vinho português".

No Brasil, a crise trouxe efeitos diferentes para os importadores. A catarinense Decanter importa rótulos de vários países, incluindo de 20 produtores portugueses das principais regiões, do Vinho Verde ao Alentejo. A empresa teve uma perda de 10% a 12% no volume de Portugal. "Ao mesmo tempo, no Brasil, a importação de vinhos portugueses cresceu 11%. É paradoxal, e o que sabemos é que o consumidor foi em busca de rótulos mais baratos", diz o sócio-presidente da empresa, Adolar Hermann.

O importador cita também o crescimento de vinhos baratos na internet, algo que não está no espectro de sua empresa, que tem preços de médios a altos. Ele conta que vinhos portugueses de US$ 1,5 (para o importador) tiveram crescimento de 40%.

A Qualimpor, que trabalha apenas com vinhos portugueses, na faixa de R$ 40 para cima, registrou crescimento. Os principais rótulos da casa são o Esporão, do Alentejo, que está na segunda posição em termos de volume no mercado brasileiro entre os portugueses, e o Quinta do Crasto, do Douro, que está em quinto lugar.

"Apesar da crise política tivemos um crescimento em vendas de 6% no primeiro trimestre comparado com o mesmo período do ano passado", afirma o dono, João Roquete, que se diz animado com as perspectivas. Sua esperança se baseia na grande aceitação do vinho português no Brasil e no câmbio estável. Claro que para o desempenho que vem tendo, reduzir a margem de lucro foi algo fundamental para manter seus rótulos competitivos.

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