Carreira

Mercado de trabalho: Haverá emprego para a geração sênior?

Fonte - Istoé Dinheiro
09/06/17 15:46
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Em meio às discussões da reforma da Previdência, empresas e entidades se movimentam para contratar mão de obra mais experiente. O preconceito, no entanto, permanece como barreira

Em 2015, o ator americano Robert De Niro, um dos ícones do cinema mundial, deu vida a um personagem totalmente diferente do seu histórico. Com atuações premiadas como a do jovem mafioso Vito Corleone e do polêmico boxeador Jake LaMotta, a idade chegou para o artista.

De Niro interpretou um aposentado de 70 anos que está em busca de um novo emprego no filme “Um Senhor Estagiário”. Ele aceita uma posição de aprendiz em um site de vendas de roupas, onde trabalham apenas jovens, que o observam com estranheza. A partir daí, ele ajuda a revolucionar a companhia, inclusive influenciando decisões da CEO, interpretada pela atriz Anne Hathaway.

 

A ficção, neste caso, ajudou a inspirar a realidade. Ao assistirem ao filme, Roberto Chade e Fábio Sant’anna, presidente e diretor de gente e gestão do programa de fidelidade Dotz, respectivamente, decidiram ir atrás dos seus “estagiários”. No ano passado, eles lançaram o programa Geração Sênior e passaram a fazer entrevistas para preencher três vagas de consultores mais experientes, acima dos 55 anos. O número de interessados passou de 1,5 mil. “Quando assisti ao filme, sabia que teria uma atitude positiva na empresa e ainda melhorar os resultados”, diz Chade.

Enquanto o governo do presidente Michel Temer tenta se manter no poder e fazer reformas como a da previdência, que deve ter como principal efeito o aumento da idade mínima para a aposentadoria, o número de desempregados na camada mais velha da sociedade aumenta. Segundo dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, de 2014 a 2016, o número de idosos sem trabalho saltou 132%, ante 75% dos jovens. Uma pesquisa do site de recrutamento Vagas.com revela ainda que o índice de idosos que não trabalham subiu de 48%, em 2012, para 72% atualmente.

A pergunta que fica, para especialistas, é se haverá emprego para todos com o estabelecimento de uma idade mínima para se aposentar. “Uma das principais questões continua sendo: como se aposentar 65 anos se já não há emprego depois dos 50 anos?”, diz Leonardo Freitas, sócio-fundador da consultoria Hayman-Woodward, especializada em expatriação de pessoas físicas e jurídicas. Um dos profissionais escolhidos pela Dotz exemplifica bem esse desafio. O paulista Marcius Berlinck, de 70 anos, tem vasta experiência no setor de tecnologia.

Passou por empresas multinacionais, como a francesa Sodexo e o banco americano Citibank. Desde 2010, no entanto, vinha sofrendo para se recolocar no mercado. Berlinck precisou se afastar das suas funções por conta de um câncer. Um ano depois, já curado, não conseguia trabalhos fixos, somente bicos como consultor. “Percebia que havia uma resistência nas entrevistas e cheguei a esconder minha idade nos processos seletivos”, diz ele. A oportunidade veio exatamente com a Dotz, onde atua como consultor de tecnologia. Além dele, foram contratados Faustino Pereira, de 58 anos, e Ricardo Namindome, com 59 anos recém-completados.

Apesar de estarem trabalhando há apenas seis meses, para Sant’anna, os resultados já são visíveis. “Os meus funcionários jovens voam com as ideias novas, mas preciso de pessoas experientes para fazê-los aterrissarem”, diz o diretor. “Como a nossa empresa tem 80% dos funcionários até 35 anos, eles ajudam muito com a experiência e no andamento dos projetos.” A contratação de funcionários mais velhos será cada vez mais comum em um futuro próximo. Em 2030, o número de brasileiros acima de 60 anos será superior ao de crianças até 14 anos.

Já no ano de 2050, os idosos representarão 29,3% da população do País, de acordo com o IBGE. Por isso, quem já valoriza a mão de obra mais experiente poderá sair na frente. É o caso do Pão de Açúcar, que criou, em 1997, o programa Terceira Idade. Formatado ainda na época em que Abilio Diniz era o controlador da gigante varejista, a empresa possui mais de três mil funcionários acima dos 55 anos trabalhando em seus supermercados.

Agora sob o comando do grupo francês Casino, algumas mudanças foram feitas para focar na diversidade dentro da companhia. O nome do projeto é GPA Iguais. Ele foca na contratação de idosos, assim como na ampliação da diversidade sexual e racial da empresa. “Uma varejista do tamanho do Pão de Açúcar precisa ter a distribuição de funcionários similar à pirâmide brasileira”, diz Antônio Salvador, vice-presidente de recursos humanos. “Temos treinado os nossos recrutadores para evitarem qualquer tipo de preconceito, seja de idade, crença ou raça, na hora da contratação.”

Preconceito persiste

Os benefícios de ter funcionários mais velhos dentro de uma organização são conhecidos há tempos. De acordo com especialistas, a resiliência em momentos de crise, a experiência para tomar decisões de maneira mais assertiva e rápida e a transmissão de conhecimento aos mais jovens são características evidentes nos funcionários da terceira idade. As empresas parecem concordar com isso. Segundo estudo da consultoria PwC e da FGV, 94% das companhias acreditam que a experiência da terceira idade contribui para o crescimento do negócio.

A boa imagem deles, no entanto, para por aí. Sete em cada dez executivos ouvidos pela consultoria afirmaram que funcionários acima dos 60 anos não se adaptam bem às mudanças. Outros 58% enxergam os idosos como menos flexíveis. Para completar, 63% disseram não contratar funcionários da terceira idade por acreditarem que eles estão acomodados com a aposentadoria. “Existe um preconceito porque as pessoas têm a imagem que o mais velho não é produtivo”, diz Alexandre Kalache, presidente do Centro Internacional de Longevidade no Brasil (ILC-BR). “Está acontecendo exatamente o contrário: os idosos estão ficando produtivos por cada vez mais tempo.”

As oportunidades desse mercado estão atraindo, inclusive, startups. O MaturiJobs, um site de recrutamento de profissionais mais experientes, foi lançado em 2016 para atender essa parte da população. Para poder concorrer a alguma vaga pelo portal, é necessário ter, no mínimo, 50 anos. A ideia de criar um site especializado na terceira idade surgiu depois do fundador Mórris Litvak observar a sua avó, uma secretária de 90 anos, parar de trabalhar. Segundo ele, a saúde dela só deteriorou sem um emprego.

Desde então, o MaturiJobs já cadastrou 450 empresas, de quem cobra mensalidades, e 42 mil profissionais ligados à sua rede. Empresas como GE, Gol e Walmart já anunciaram vagas no site. “As empresas estão entendendo que o povo está envelhecendo e que eles precisarão contratar pessoas com mais idade”, diz Litvak. Os próximos passos da startup serão focados na criação de cursos de tecnologia e empreendedorismo para os usuários, que não pagam nada para utilizar a plataforma.

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