Estilo de Vida

Quando vale a pena parcelar uma compra?

Fonte - Época Negócios
27/06/17 15:09
134

Com juros ou sem juros, saiba o que levar em consideração na hora de decidir como pagar suas contas

Parcelar uma compra equivale a se fazer um empréstimo, mas essa questão transcende o aspecto matemático, como poderíamos supor em um primeiro momento.

Quando parcelamos uma compra, o raciocínio matemático (ou financeiro) poderia nos indicar que, caso a taxa de juros cobrada nesse empréstimo fosse menor do que aquele que conseguimos obter em um investimento financeiro, valeria a pena, dado que pagaríamos mais barato por pegar recursos emprestados do que seríamos remunerados para emprestar a mesma quantidade de dinheiro.

Seguindo esse raciocínio, no caso de parcelamento sem juros, sempre valeria a pena, dado que qualquer remuneração será maior do que zero. No entanto, existem outros fatores a serem levados em conta.

O primeiro deles refere-se ainda à esse modelo de raciocínio. Para fazer essa comparação, do lado do empréstimo, deve-se levar em conta não apenas a taxa de juros, mas sim seu custo efetivo total, que contabiliza impostos, taxas e outros custos. Já do lado do investimento, deve-se levar em consideração o rendimento líquido, já descontado o imposto de renda. Desta forma a comparação fica justa.

Uma segunda linha de raciocínio nos leva a avaliar se a oferta de parcelamento tem a taxa de juros anunciada (em algumas vezes, zero) na realidade ou se trata-se de uma ação de marketing que não se mantém de pé quando analisada de forma um pouco mais profunda. Em muitos casos, anuncia-se a taxa de juros como sendo zero (ou muito baixa), mas caso o pagamento seja feito à vista, oferece-se um desconto. Ora, se oferece-se desconto à vista, esse é o preço real do produto ou serviço e o parcelamento sem juros ou com juros baixos sobre outra base nada mais é do que uma mentira para consumidores menos avisados. Existe ainda uma outra vertente, que é a da loja não oferecer nenhum desconto à vista, mas seus concorrentes oferecem o mesmo produto ou serviço a preços menores. O resultado é o mesmo do exemplo anterior: Juros embutidos, mas disfarçados.

Por fim, existe um outro componente, talvez ainda mais importante que os dois já citados e que é mais difícil de ser notado. Quando parcelamos uma compra, com ou sem juros, nossa mente se fixa no valor da parcela e não no valor total pago ou na taxa de juros, que são componentes importantes e que precisam ser avaliados quando se faz uma operação de empréstimo. Assim, muitas vezes, nos fixamos em saber se a parcela “cabe no bolso” e nos esquecemos de outros fatores fundamentais. A “dor” em pagar é, assim, bem menor.

Além disso, nosso cérebro não é projetado para fazer esse “planejamento” do parcelamento de forma intuitiva. Assim, quando fazemos uma compra parcelada, nossa mente “grava” que temos como despesa a primeira parcela, mas para as demais, a chance de esquecimento é enorme. Desta maneira, nós fazemos o parcelamento e nossa “contabilidade mental” desconta esse valor do orçamento desse mês, mas não dos demais. O grande risco aqui é fazermos novos parcelamentos nos próximos meses e, mentalmente, intuirmos que temos mais recursos do que temos na realidade, ou seja, gastarmos o mesmo dinheiro mais de uma vez.

A cultura brasileira de parcelamento tem como uma de suas origens a época da hiperinflação, quando obter um parcelamento sem juros (ou com juros baixos) era certeza de um excelente negócio, uma vez que a inflação se encarregava de dar grandes “descontos”. Essa época, para o bem do País, acabou. Essa estratégia também deveria ter acabado, mas sobreviveu, principalmente pela redução da “dor” no ato da compra, nossa ansiedade para comprar coisas para as quais ainda não temos recursos e departamentos de marketing que, conhecedores do funcionamento da mente humana, aplicam essa estratégia para aumentar as vendas.

Se você fizer a análise sobre esses três prismas e, ainda sim, encontrar um bom negócio no parcelamento, pode funcionar para você. No entanto, para a maioria das pessoas, definitivamente, não será um bom negócio.

Valter Police Junior, autor do texto, é planejador financeiro pessoal e possui a certificação CFP® (Certified Financial Planner), concedida pela Associação Brasileira de Profissionais Financeiros - Planejar

Cadastro Login
Acesse com sua rede social
ou
Esqueceu sua senha?
Cadastro Login
Acesse com sua rede social
ou
Um e-mail de confirmação chegará em sua caixa de entrada
Cadastrar Login
Cadastrar