Economia Verde: a saída para um mundo pós-pandemia

De acordo com estudos, cerca de R$ 2,8 trilhões podem ser injetados na economia brasileira com a nova matriz econômica

Publicado por Acieg em 25 de maio de 2021

Durante o dia 22 de abril se comemorou o Dia da Terra em todo o globo. Junto com as celebrações da data, também aconteceu a “Cúpula de Líderes sobre o Clima”, reunindo em torno de 40 países, incluindo o Brasil. Pela primeira vez a reunião aconteceu de forma online. 

Na ocasião, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) anunciou medidas ambientais, como a pretensão de zerar o desmatamento florestal até 2030, no País.

As comemorações e a cúpula sinalizaram uma discussão levantada nas últimas décadas: a economia verde ou ecológica. O conceito debatido tem se apresentado como uma alternativa economicamente viável em um mundo pós-pandemia. 

Para se mensurar a sua viabilidade, o estudo “Uma Nova Economia Para Uma Nova Era” aponta que o Brasil pode acrescentar R$ 2,8 trilhões em sua economia até 2030, se implementar e executar políticas ambientais já existentes e criar um ambiente de correto aproveitamento do capital natural brasileiro.

Outro destaque do estudo é a geração de 2 milhões de empregos com investimentos de propostas economicamente ecológicas. O estudo foi feito pelo WRI Brasil e The New Climate Economy em parceria com universidades como a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e a Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). 

Os micro empreendedores (MEIs) e pequenos negócios podem ser beneficiados ou até se tornarem a base desta nova economia. A Acieg entrevistou o doutorando e professor de economia do Instituto de Pós-Graduação e Graduação de Goiás (IPOG), Renato Ribeiro, e a gerente de empreendimentos da construtora goianiense Consciente, Camila Inácio, para abordar e apontar os caminhos em que os empreendedores goianos podem buscar para se adequar à essa nova realidade econômica. 

O que é economia verde, afinal?

Uma das questões destacadas pelo especialista do IPOG, Renato Ribeiro, é a definição do que seria economia sustentável ou ecológica. O especialista pondera que são propostas que visam a sustentabilidade, em que a redução dos riscos ambientais e a preocupação com a escassez ecológica são a norma. 

Ele exemplifica as políticas de reflorestamento de longo prazo como um dos carros chefes que melhor simbolizam as medidas adotadas pelas nações para incrementar sua economia e preservar o meio ambiente. 

O Estado de Goiás é uma das maiores potências desta nova matriz econômica, primeiramente pela rica biodiversidade do ecossistema predominante na região, o cerrado, seguido pelo principal motor econômico do Estado: o agronegócio.  Estas duas forças trabalhadas com uma política pública, de acordo com Renato, podem gerar receitas a longo prazo e de crescimento estável. 

O cerrado é um dos mais ricos ecossistemas. Manter e preservar, além de se tornar uma atividade econômica rentável, também podem contribuir para que metas do Acordo de Paris, como manter a subida da temperatura global abaixo de 1,5 ° C, sejam cumpridas. 

Outro aspecto que tem um ótimo potencial econômico é a agricultura sustentável. Plantar e colher sem desmatar e reaproveitar o espaço físico para, por exemplo, a pastagem de gado, pode gerar economia de 40% nos custos finais ao produtor rural, de acordo com estudo feito pela WRI Brasil.    

Potencial investimento verde

Como uma matriz nova que está em processo de implementação e regulamentação, o pensar economicamente verde tem muitas facetas a serem exploradas. Questionado sobre qual seria o primeiro passo para o empreendedor que queira explorar esse novo mercado, Renato pontua a necessidade de procurar produtos que sejam reutilizáveis e recicláveis.  

“Pensar em produtos que sejam reaproveitados pode gerar não somente uma redução do impacto ao meio-ambiente, mas também em custos para obter e adquirir matéria prima”, destaca o professor.

Renato aponta que outro potencial de mercado é o financeiro, que faz uso da governança corporativa. “Este segmento terá grande investimento governamental e será cobrado no núcleo das nações unidas, para gerar bons resultados quanto a estes investimentos e alcançar as metas do Acordo de Paris”.

O mercado de varejo digital, que recebeu grande demanda e consequentemente crescimento durante as restrições causadas pela pandemia da covid-19, é outro potencial em que Ribeiro visualiza como promissor, principalmente durante a recuperação pós-período pandêmico e pela contínua expansão do processo de digitalização dos processos de vendas e compras no País.  

“Com a crise pandêmica, o crescimento foi muito maior, ocasionando maiores negociações em plataformas digitais e uma maior confiança do cliente que não conhecia ou que tinha preconceito com esta forma de compras”, destaca.

Outro nicho promissor é o de Logística, para o qual o administrador vislumbra uma demanda grande de movimentação e transporte de cargas. Ele ressalta que este mercado precisará em médio prazo de mão de obra qualificada e planejamentos de alta complexidade para atender todo o potencial que poderá ter nos próximos anos, principalmente impulsionado pelas vendas online. 

Construção sustentável

A construtora goianiense Consciente é uma das maiores empreendedoras na área da construção civil e líder na construção de propostas ecológicas do estado. A empresa tem mais de três décadas de atuação no mercado goianiense.

Camila Inácio, gerente de empreendimentos da construtora, conta que o pensar ecologicamente se inicia a partir da concepção do projeto arquitetônico. Ela explica que há um processo interno chamado Selo Consciente, em que são mapeados diversos itens de conforto, facilities, economia de água e energia entre outros, dos quais vários deles abrangem desde canteiro de obras até o projeto em si. 

Todos os novos projetos da empresa devem se adequar a esse procedimento. “Assim garantimos a sustentabilidade em nossos projetos da concepção até sua entrega. Esses itens vão desde economia de água e energia, a lava rodas e contenção de terreno”, conta. 

A gerente pontua que percebe que os métodos adotados pela construtora, principalmente na última década, se alinham à evolução do mercado. Não somente o mercado de construção, mas Camila destaca que os novos estilos de vida se preocupam cada vez mais com o impacto ambiental.

Outro aspecto levantado por Camila é a constante busca por soluções mais sustentáveis para seus produtos.  Ela conta ainda qual foi o impacto da pandemia da covid-19 no mercado de construção civil, detalhando que as restrições sociais geraram novas demandas e uma valorização do espaço tanto interno quanto externo dos apartamentos, principalmente em relação ao contato com a natureza, o que favoreceu os negócios da construtora, uma vez que seus produtos sempre buscam essa valorização sustentável.

Camila conta sobre o último lançamento da Consciente, o WTC Goiânia, que contempla uma área de lazer completa e exclusiva, aliada a uma praça de 2000m² de área verde e conveniências no mesmo terreno. Ainda nesse mesmo projeto, foram contemplados cerca de 100 itens do Selo Consciente.

“As pessoas passaram a procurar projetos em que os imóveis sejam mais espaçosos e com bastante contato com a natureza. E passaram a se preocupar mais com a questão da economia da água e energia elétrica”, conta.

Uma Nova Economia 

O estudo Uma Nova Economia Para Uma Nova Era desenvolvido por especialistas como economistas, biólogos e o setor produtivo buscou integrar estes diversos setores para criar um diálogo das possibilidades que o Brasil tem como potencial para as áreas voltadas para a matriz da economia verde.

A pesquisa desenvolvida pela WRI Brasil apontou que o primeiro passo é a criação de ambiente jurídico com risco estável para projetos de infraestrutura. Em conjunto com um âmbito confiável – o estudo sugere uma integração com as representações públicas do meio ambiente para que os projetos apresentados ao leilões possam ser avaliados de uma forma integrada aos outros aspectos de legibilidades solicitados em leilões.   

O relatório pontua que além de criar este ambiente jurídico de segurança e de médio risco, há outro fator que não é usualmente levado em questão: projetos de infraestrutura ecologicamente planejados em toda sua integridade. Os leilões devem dar prioridade às propostas que abraçam o coexistir com a natureza. 

Propostas como energia eólica, reaproveitamento hídrico por serviços de saneamentos e construções fluviais que podem acelerar a universalidade do acesso ao serviço de água potável e esgoto são outro fator determinante para a matriz ambientalista ser aderida pelos leilões de parceria pública-privada (PPP). De acordo com o estudo, cerca de 29 bilhões de dólares podem ser economizados em curto prazo com a adoção desses métodos de construção e produção energética. 

Outros aspectos levantados dentro da pesquisa é a governança ambiental. Segundo o levantamento, cerca de R$ 742 milhões podem ser adicionados nas contas públicas provenientes das receitas fiscais.  Juntamente com isso, a indústria também recebeu uma indicação de investimento direcionado a tecnologia e automatização do processo de produção. 

Este tipo de direção poderá aperfeiçoar e diminuir gastos de matérias primas a longo prazo. Além de incrementar em torno de 1,1 milhão de postos de trabalho com mão de obra qualificada.